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Não existe mais lei: o caso Master, a crise no STF e o que está em jogo

Contratos, mensagens e o choque entre ministros que expõe a Corte.

Por pautainformativa
Não existe mais lei: o caso Master, a crise no STF e o que está em jogo
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O que se vê no Supremo Tribunal Federal neste setembro de 2026 não é um desentendimento pontual entre gabinetes. É o desdobramento de um escândalo financeiro — a liquidação do Banco Master e de instituições do mesmo grupo — que chegou aos próprios ministros da Corte, ao procurador-geral da República e à cúpula da Polícia Federal. A sequência, reconstruída a partir de relatórios da PF, decisões judiciais e reportagens de Folha, O Globo, Estadão, Veja, Bloomberg, CNN e G1, é a seguinte.

O rombo e a prisão

Em novembro de 2025, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Banco Master, controlado por Daniel Vorcaro. A PF prendeu o banqueiro no Aeroporto de Guarulhos quando ele tentava embarcar para Malta. O Fundo Garantidor de Créditos passou a cobrir depósitos de Master, Will Bank e Banco Pleno. O rombo estimado em garantias chega a cerca de R$ 51,8 bilhões — o maior da história recente do FGC. O fundo já pagou dezenas de bilhões; o patrimônio líquido caiu mais de 12% em 2025.

A defesa de Vorcaro levou o caso ao STF sob o argumento de que as investigações tocavam autoridades com foro privilegiado. Dias Toffoli assumiu a relatoria.

Toffoli: relatoria, resort e saída sob pressão

Toffoli concentrou o material apreendido, encurtou prazos e, segundo investigadores, dificultou o trabalho da PF. A Folha revelou que fundos ligados ao entorno do Master (Reag/Arleen, com ligação ao cunhado de Vorcaro, Fabiano Zettel) compraram participação no resort Tayayá, no Paraná, então ligado à empresa familiar Maridt, da qual Toffoli é sócio. O ministro admitiu a sociedade, disse que a gestão é dos irmãos, que a venda antecedeu a relatoria e que nunca teve amizade ou recebeu valores de Vorcaro. Negou suspeição.

A PF encontrou menções a Toffoli no celular de Vorcaro e pediu sua suspeição. Após reunião dos ministros, Toffoli deixou a relatoria. Os colegas divulgaram nota: não havia motivo formal para suspeição, os atos praticados eram válidos, e expressavam “apoio pessoal”. André Mendonça, sorteado, assumiu o caso.

Moraes: o contrato de R$ 129 milhões e as mensagens

Em paralelo, O Globo e outros veículos revelaram contrato entre o Banco Master e o escritório Barci de Moraes — da mulher do ministro Alexandre de Moraes, Viviane Barci, e dos filhos do casal. O acordo, de 2024, previa cerca de R$ 3,6 milhões mensais por três anos, totalizando cerca de R$ 129 milhões a R$ 131 milhões. Com a liquidação, os pagamentos pararam; a Receita e reportagens apontam que o escritório chegou a receber em torno de R$ 80 milhões. O objeto era amplo: atuação perante BC, Receita, Cade, Congresso, MP e Polícia Judiciária. O escritório afirmou ter feito dezenas de reuniões e pareceres e negou atuação junto ao STF. Advogados de mercado disseram à Folha que o valor estava muito acima da prática usual para o escopo descrito.

O relatório da PF cujo sigilo Mendonça levantou em setembro de 2026 foi além. Segundo Estadão, O Globo, Veja e Folha:

  • metadados de uma versão do contrato registram edição atribuída ao usuário “Ministro Alexandre de Moraes”;
  • Vorcaro teria trocado dezenas de mensagens com um contato que a PF atribui a Moraes;
  • dois dias antes da prisão, o banqueiro perguntou se já deveria “estar fora” do país;
  • houve pedidos de intercessão junto à PF e ofertas de vantagens, incluindo cotas de jato e helicóptero;
  • os dois teriam se encontrado várias vezes entre 2024 e 2025.

Moraes não apresentou, até aqui, uma resposta pública detalhada a cada ponto do relatório. O escritório sustentou legalidade do contrato.

Gonet, agrados em Londres e o pedido de anulação

O mesmo material aponta intimidade entre o entorno de Vorcaro e o procurador-geral Paulo Gonet, via o advogado Ciro Soares. Mensagens falam em saudades, convite para evento em Londres, inclusão do filho de Gonet na comitiva e a frase atribuída ao PGR: “Tomara que tenha charuto e Macallan”. Vorcaro pagou, em 2024, degustação de whisky Macallan em Londres da qual, segundo o Estadão, participaram autoridades — entre elas nomes citados como Moraes, Toffoli, Gonet e o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues. A PGR evitou comentar investigação sigilosa. Gonet pediu a anulação do relatório de Mendonça.

O relator que tentou abrir o processo — e a contraofensiva

Mendonça pediu à PF que identificasse o interlocutor do banqueiro. O relatório apontou Moraes. O ministro da relatoria levou o caso ao presidente da Corte para o plenário avaliar abertura de investigação contra o colega.

A resposta veio pelo Inquérito das Fake News, sob Moraes: acusações de irregularidades e crime de responsabilidade contra Mendonça, lastreadas em relatórios de inteligência da PF que o próprio Mendonça considera não assinados e produto de monitoramento ilegal. Mendonça comparou o episódio a 1984, de Orwell, e determinou o afastamento do diretor-geral da PF. Kassio Nunes Marques e Luiz Fux formaram maioria na Segunda Turma; Gilmar Mendes pediu vista.

No dia seguinte — 9 de setembro de 2026 — Flávio Dino, em outro processo, reintegrou Andrei Rodrigues, proibiu novas cautelares contra os delegados e criticou Mendonça por “decidir em causa própria”, citando ainda um encontro de Mendonça com Vorcaro em março de 2025 no Instituto Iter (antes de Mendonça ser relator). Mendonça diz que apenas ouviu o empresário sobre precatórios.

O Senado e o impeachment que não anda

Cabe ao presidente do Senado pautar pedido de impeachment de ministro do STF. Davi Alcolumbre reuniu-se com Moraes. A Veja noticiou que proposta de delação de Vorcaro menciona pagamento de US$ 30 milhões (cerca de R$ 155 milhões) a Alcolumbre, em conta no exterior, o que o senador classifica como “alegações absolutamente falsas” e promete processar. Há ainda relatos de eventos no exterior ligados ao ecossistema Master e de indicações em fundos que compraram títulos do banco. No Congresso circula a tese do “impeachment cruzado”: se avançar pedido contra Moraes, avança também contra Mendonça.

O que está em jogo

Nenhum dos ministros citados foi condenado nestes fatos. Toffoli, Alcolumbre e o escritório de Viviane Barci contestam as narrativas que os atingem. A PF e o relator Mendonça sustentam que o material do celular de Vorcaro é grave o suficiente para o plenário se pronunciar. A Segunda Turma chegou a ter maioria para afastar o diretor da PF; uma decisão monocrática de Dino inverteu o quadro na prática.

O caso Master deixou de ser só um crime financeiro. Virou teste de se a Corte investiga os próprios integrantes com o mesmo rigor com que investiga o resto do país — ou se o rito, o foro, o inquérito permanente e a pauta do Senado funcionam como escudo. Essa é a leitura condensada na frase que circula com a imagem da Justiça vendada diante do STF e da bandeira rasgada: não existe mais lei, no sentido de regra igual para todos.

A apuração criminal segue. O plenário ainda não julgou, de forma definitiva, se Moraes deve ser investigado. O FGC continua a pagar o rombo. E o país entra no ano eleitoral com a mais alta Corte no centro do escândalo, não na posição de árbitro distante.

Fonte: Leandro Ruschel e adaptação.

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