A mais recente pesquisa da AtlasIntel, divulgada em fevereiro de 2026, traz um dado intrigante que desafia narrativas consolidadas sobre o voto jovem no Brasil. Eleitores entre 16 e 24 anos mostram maior inclinação pela candidatura de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) do que pela de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em um eventual segundo turno das eleições presidenciais. Essa inversão simbólica em relação a ciclos eleitorais passados, onde a juventude era majoritariamente associada a pautas progressistas, abre uma frente estratégica para a disputa de 2026.
De acordo com o analista da AtlasIntel, Breno Oliveira, o fenômeno pode ser atribuído a um fator geracional chave: muitos jovens dessa faixa etária não possuem memória política dos primeiros governos petistas. Indivíduos com 18 ou 20 anos hoje eram crianças ou nem haviam nascido durante os mandatos iniciais de Lula, nos anos 2000. Assim, sua avaliação se concentra no desempenho atual do governo, incluindo aspectos como inflação, mercado de trabalho, ambiente cultural e discurso público, em vez de referências históricas de crescimento econômico e políticas sociais emblemáticas.
Essa tendência não necessariamente indica uma guinada conservadora em massa entre os jovens, mas sim um afastamento emocional do lulismo tradicional. Socializados em um ecossistema de redes sociais, polarização constante e linguagem digital, esses eleitores respondem melhor aos códigos ágeis e menos institucionais do bolsonarismo. O discurso “anti-establishment” de Flávio Bolsonaro ganha apelo, mesmo contra um governo que se posiciona como guardião da democracia institucional.
Outras pesquisas corroboram o crescimento do apoio jovem a Flávio, sugerindo uma trajetória ascendente. Em novembro de 2025, uma sondagem anterior da AtlasIntel já apontava Flávio à frente entre jovens de 16 a 24 anos, com 31,3% das intenções contra 23,6% de Lula no primeiro turno. Essa preferência se intensificou na pesquisa de fevereiro de 2026, alinhando-se ao avanço geral do senador: no segundo turno, Flávio aparece com 46,3% contra 46,2% de Lula, configurando empate técnico, enquanto no primeiro turno Lula lidera com 45% ante 37,9% a 39,5% de Flávio, dependendo do cenário. A redução da vantagem de Lula, que em janeiro era de 4,3 pontos a favor do petista no segundo turno, reflete um momentum favorável a Flávio.
Perspectivas de outras fontes reforçam essa dinâmica. A pesquisa Quaest de fevereiro de 2026 mostra Lula com 35% a 39% no primeiro turno e Flávio com 29% a 33%, com a vantagem do presidente no segundo turno caindo de 10 pontos no fim de 2025 para 5 pontos agora. Entre independentes, grupo que representa 32% do eleitorado, a liderança de Lula sobre Flávio diminuiu de 16 para 5 pontos, indicando volatilidade que pode beneficiar o senador em segmentos jovens, mais suscetíveis a campanhas digitais. Analistas observam que o PL se surpreendeu com a rapidez desse avanço, atribuindo-o à articulação política e ao apelo familiar de Flávio.
No entanto, Breno Oliveira alerta que esse apoio não é consolidado. O eleitorado jovem é altamente volátil, influenciado por mudanças em comunicação, marketing político, crises econômicas ou eventos digitais. Embora não sejam a maioria do eleitorado, os jovens de 16 a 24 anos possuem peso simbólico e poder de mobilização nas redes, influenciando debates culturais e narrativas online. Em um contexto de polarização extrema e margens estreitas, deslocamentos nessa faixa podem ser decisivos.
Para Lula, que enfrenta teto eleitoral e erosão de entusiasmo na base, recuperar o terreno entre os jovens torna-se urgente. Já para Flávio, o desafio reside em transformar simpatia inicial em fidelidade duradoura, explorando sua agilidade digital e bases evangélicas e jovens para consolidar o crescimento observado nas pesquisas.
Fonte: Veja
Foto: Gazeta do Povo
















